sábado, 17 de dezembro de 2016

Yule é esperança




 "Todos os faunos são tristes e sua maior tristeza consiste
em tentar esconder dos outros sua tristeza"
Autor Desconhecido

Deus está morto. Foi ouvido por toda helade antiga e espalhada a noticia: O grande Deus Pan está morto. São cada vez mais escuros os dias que antecedem o inicio do inverno — eu ainda te amo —, e eu estou sentado à frente deste computador escrevendo sobre memórias de deuses mortos e das partes escuras de mim, os fantasmas que são meus.
Está não é a resposta de nenhuma carta, todas as palavras que poderiam ter sido ditas se perderem entre as embarcações que anunciavam que o deus morreu durante o Samhain; muita coisa morre depois do dia de todos os santos. E quando a última vela do dia de finados se apaga, os homens vivos recolhem as cinzas e a cera derretida e recolhem-se em cinzas e derretimento.
Eu nasci em um destes dias escuros, na véspera de uma lua cheia, numa quinta feira em um signo regido pelo rei de todos os deuses, e dos inúmeros raios que isto trouxe em minha vida, eu que nasci três dias antes da noite mais longa noite do ano, nasci esperando o inverno chegar, o sol nascer novamente.
Há pouco que alguém possa ter vivido aos vinte e cinco e eu me sinto como se carregasse uma dezena de vidas comigo; eu ainda sou o jovem quase morto aos dezesseis que velava o seu primeiro amor, sua décima paixão? Ou eu sou aquele que segurava as pontas de um suicida que havia tentado destruir sua vida? Eu ainda trago comigo o jovem cheio de vida que dançava intensamente, que se apaixonava como o universo se movia? Lentamente e com força.
Ou estas pessoas morreram em mim, naquele fim de tarde numa ponte, quando nos beijamos pela última vez sem nos darmos conta? A minha vida é tão curta e eu trago comigo tantos fantasmas. A criança cuja inocência foi arrancada, o adolescente perdido da balada, o adulto com um copo de café na mão escrevendo estas palavras.
Sinto-me um destes astecas sacrificando virgens para que o sol nasça de novo, mas se o Grande Deus Pan está morto, o que me resta a não ser cuidar para que ele renasça? Para que o sol cuja luz morreu na véspera de todos os santos, renasça novamente ao terceiro dia após o dia que nasci?
Eu estou apaixonado, mas é preciso viver. É preciso caminhar para ver o sol e não há esperança que nasça sem sacrifício. Eu estou morrendo, mas é necessário viver, pois a vida não para e os deuses não esperam, eles gritam do alto do monte que a morte é necessária para que haja, no fim da noite mais fria, um novo alvorecer.
A escolha é minha, no fundo sempre foi, se devo matar meus fantasmas ou a mim.
O Grande Deus Pan não está morto, deuses apenas dormem porque sabem que tudo aquilo que morre renasce renovado, diferente de si, mas ainda o mesmo. O Grande Deus Pan vive e reina, dentro de mim, na esperança que eu ainda mantenho — e sustento— de que dias mais claros virão.


Thiago F. Atalos
Ano I da era do corvo

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