domingo, 12 de fevereiro de 2017

Capitulo V - Requiem




Sombras se acomodam no lugar que você deixou...
Não havia ninguém para buscar as coisas restantes no apartamento. Ninguém que não fosse aquele que havia sido deixado para trás, Carlos. Amanda se fora e deixara para trás uma dúzia de caixas, tão pouco para uma vida inteira, tanto para alguém que nunca havia se apegado a coisa alguma.
Amanda era a força sagitariana de alguém que cavalgava em direção à um mundo que não iria amá-la nunca; Carlos sentia a dor de seu fantasma em seu peito sombrio, pois estava ciente de que, além das lembranças naquelas doze caixas, tudo que restava dela estava ali em seu peito: a dor que ela deixou ao ir embora.
...Nossas mentes estão aflitas pelo vazio
O Lucky Strike em seus dedos nunca lhe parecera mais convidativo, acomodou-se sentado em uma das caixas e abriu aquela que tinha seu nome: uma modesta, pequena, sem duvida. Pequena demais para conter um relacionamento, mas, no final das contas, talvez o número tão parco de lembranças significasse a importância escassa daquilo para ela.
O cigarro queima, a fumaça sobe e as lembranças vem, na memória e em suas mãos, uma coletânea de fotos de uma era que parecia ter sido a um milênio; fora a pouco mais de um ano. Ela sorria, Carlos havia esquecido como aquele sorriso era belo, como aquele sorriso era belo quando sorria para ele. Aquele sorriso que agora gargalhava no inferno, certamente.
Fotos sensuais dela. Amara seu corpo, cada curva do seu corpo, como se pertencesse a uma divindade. Suas pernas, seus seios rijos, seu olhar perdido de garota; havia amor, certamente, mas o desejo lhe queimava como o cigarro se acabava sozinho. Era desejo ou saudade o que sentia por ela? Era o desejo de beijar sua boca ou a saudade de abraçá-la que doía mais?
Havia vida depois da dor?
E se você ainda está respirando, você é um dos sortudos
Cartas, milhares de cartas que mal cabiam naquela caixa. Se cada palavra fosse um punhal, Carlos sangraria até a morte, um sangue rubro chamado arrependimento. Arrependimento de que? Se perguntava. Por mais que ele olhasse para trás, por mais que ele visse os cabelos dela indo embora naquela ponte, a última ponte em que se viram, ele não conseguia mudar o que acontecera, em nenhuma hipótese, em nenhum mundo.
Então porque estava arrependido? Talvez não tivesse aproveitado o bastante e beijado aqueles seios o bastante, mordido seus pés macios, sugado o doce mel de sua vulga, o som melódico daqueles gemidos intermitentes que para ele podiam durar horas como uma sinfonia eterna.
— Eu sou tua. — mas ela não era.
Porque a maioria dos nossos sentimentos, estão mortos e acabados
E essa garrafa de conhaque de onde viera? Não sabia ao certo, era uma lembrança perdida em meio a fotos; uma lembrança que ele logo percebeu que não era dele, pois vinha acompanhada de um pequeno bilhete.
“Sob as flores outonais — flores preguiçosas — que escondes nas matas entre tuas pernas, encontrei um lugar de descanso. Te amo, F.”
Ele certamente não havia escrito esse poema, jogou-o de lado, junto com a ponta terminada do cigarro. Abriu a garrafa, enquanto ouvia os sussurros dela na memória. “eu sou tua, ela dizia”, era prazer e não amor. Tudo que ela sentia por ele era um gemido e não amor. Não. Estava mentindo, ela tinha o amado, sim, por algum tempo, mas havia acabado, acabado como o cigarro que fumara. Acendeu outro.
Nós estamos incendiando nossos interiores por diversão
Um gole e depois outro, noite adentro, enquanto remoia aquelas memórias à sua mão. Ele a amava? Certamente que sim e a odiava. Odiava-a por tê-lo abandonado, odiava-a por não ter ficado. Ela preferiu morrer em Londres a viver com ele. Ela preferiu morrer nas mãos de outro que passar mais um dia o amando mal.
A garrafa escorrega de sua mão, o cigarro também. E logo o fogo se alastra entre as fotos. O sorriso dela some em meio a fumaça, o gosto do beijo dela não some jamais, no entanto.
Foi uma inundação que destruiu esta casa e você causou isso.
— Você está bem, senhor? — o porteiro havia aparecido para apagar o inicio de incêndio que havia causado.
— Foi só um acidente. Só isso, apenas um acidente.
Um acidente. Uma sagitariana corria em seu devaneio, uma pequena garota que logo chegaria à fase adulta e feriria seu coração, ela cai, machuca-se, um garoto beija-lhe a testa. O seu primeiro amor.
Um acidente. Carlos, um jovem de então vinte e um anos, comprava um buque de violetas para sua jovem namorada — que ainda não era Amanda — mas ela amava outro, todas sempre amavam outros. Todas cedo ou tarde iriam amar outros homens.
Um acidente. Anos mais tarde os dois se esbarraram, tinha quase a mesma idade, Amanda era um tanto mais alta e se amaram. O amor é um acidente, uma colisão de dois universos que certamente pode destruir a ambos ou criar algo novo. Um deles respirava, a outra estava morta, mas ambos estavam destruídos. Quem teria apostado nesse caminho?
Bem, eu perdi tudo, eu sou apenas uma silhueta
Um rosto sem vida que você logo esquecerá
— Alo. Gabriel Arcanjo? Eu gostaria de comprar uma casa, o mais longe possível dessa cidade. O mais longe possível dessas lembranças.
O porteiro que ainda esperava Carlos, não mais o deixando estar só, temeroso de um novo incêndio. Aguardou o fim da conversa com o corretor e, alheio a todos os sentimentos que pairavam no coração do jovem, perguntou a única coisa que podia:
— O que eu mando fazer com essas caixas? — o que aqui significava: o que eu faço com todas essas lembranças?
— Elas não são mais problema meu.
Mas eu sentirei falta dela pra sempre.
E você causou isso.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Yule é esperança




 "Todos os faunos são tristes e sua maior tristeza consiste
em tentar esconder dos outros sua tristeza"
Autor Desconhecido

Deus está morto. Foi ouvido por toda helade antiga e espalhada a noticia: O grande Deus Pan está morto. São cada vez mais escuros os dias que antecedem o inicio do inverno — eu ainda te amo —, e eu estou sentado à frente deste computador escrevendo sobre memórias de deuses mortos e das partes escuras de mim, os fantasmas que são meus.
Está não é a resposta de nenhuma carta, todas as palavras que poderiam ter sido ditas se perderem entre as embarcações que anunciavam que o deus morreu durante o Samhain; muita coisa morre depois do dia de todos os santos. E quando a última vela do dia de finados se apaga, os homens vivos recolhem as cinzas e a cera derretida e recolhem-se em cinzas e derretimento.
Eu nasci em um destes dias escuros, na véspera de uma lua cheia, numa quinta feira em um signo regido pelo rei de todos os deuses, e dos inúmeros raios que isto trouxe em minha vida, eu que nasci três dias antes da noite mais longa noite do ano, nasci esperando o inverno chegar, o sol nascer novamente.
Há pouco que alguém possa ter vivido aos vinte e cinco e eu me sinto como se carregasse uma dezena de vidas comigo; eu ainda sou o jovem quase morto aos dezesseis que velava o seu primeiro amor, sua décima paixão? Ou eu sou aquele que segurava as pontas de um suicida que havia tentado destruir sua vida? Eu ainda trago comigo o jovem cheio de vida que dançava intensamente, que se apaixonava como o universo se movia? Lentamente e com força.
Ou estas pessoas morreram em mim, naquele fim de tarde numa ponte, quando nos beijamos pela última vez sem nos darmos conta? A minha vida é tão curta e eu trago comigo tantos fantasmas. A criança cuja inocência foi arrancada, o adolescente perdido da balada, o adulto com um copo de café na mão escrevendo estas palavras.
Sinto-me um destes astecas sacrificando virgens para que o sol nasça de novo, mas se o Grande Deus Pan está morto, o que me resta a não ser cuidar para que ele renasça? Para que o sol cuja luz morreu na véspera de todos os santos, renasça novamente ao terceiro dia após o dia que nasci?
Eu estou apaixonado, mas é preciso viver. É preciso caminhar para ver o sol e não há esperança que nasça sem sacrifício. Eu estou morrendo, mas é necessário viver, pois a vida não para e os deuses não esperam, eles gritam do alto do monte que a morte é necessária para que haja, no fim da noite mais fria, um novo alvorecer.
A escolha é minha, no fundo sempre foi, se devo matar meus fantasmas ou a mim.
O Grande Deus Pan não está morto, deuses apenas dormem porque sabem que tudo aquilo que morre renasce renovado, diferente de si, mas ainda o mesmo. O Grande Deus Pan vive e reina, dentro de mim, na esperança que eu ainda mantenho — e sustento— de que dias mais claros virão.


Thiago F. Atalos
Ano I da era do corvo

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Feitiços de amor não existem






“Respire. Aqui não há tempo que possa alcançá-lo, as árvores cobrem o céu, de forma que você não sabe se é dia ou noite. Tudo que você pode ouvir é o som da minha voz, a minha voz que lhe alcança através das árvores, nada mais lhe alcança através das árvores, nem mesmo a luz. Tudo que você vê é o caminho a sua frente. Aqui não há passado ou futuro, aqui é o eterno presente, aqui é um feitiço, o feitiço que você jogou sobre si mesmo.” Ela diz antes de sua voz cessar no escuro da floresta que não ouso adentrar.
Meus pés estão descalços, mas as pedras não os machucam, assim como o frio não incomoda meu corpo nu. Eu caminho na estrada sem me preocupar com tempo, não há relógios aqui ou deuses para medir o tempo. Aqui, nesta floresta, é onde os deuses nascem. E onde — dizem — eles vêm para morrer.
Meu nome é Henrique nesta vida, mas aqui todas as vidas que vivi são também eu e carrego comigo todos os nomes que tive desde que Prometeu roubou o fogo dos céus e deu ao primeiro homem. Eu sou filho da deusa que carrega consigo esta chama numa tocha que nunca se apaga, é a voz dela que me guia nesta estrada que não existe, é sua força que me mantém de pé na estrada que leva para fora do mundo.
A minha frente há uma encruzilhada de três caminhos e eu paro no meio dela, incapaz de decidir por onde continuar.
— A esquerda. — diz minha mãe. Eu a obedeço.
Tudo está escuro. Eu sou uma gota que cai numa taça, uma gota de sangue, do meu sangue. Há apenas a taça e a gota que cai, mas eu sei, porque eu lembro, as palavras que foram recitadas junto a este feitiço.
“Tudo começou com um feitiço. Um simples feitiço para reencontrar alguém que quis ir embora. Um feitiço para destruir, um feitiço para criar. Um feitiço de amor de um jovem que não estava ciente de que nenhum poder é capaz de fazer alguém amar a quem não quer.”
As palavras dela são um rio, um rio que corre ao contrário e que desemboca numa memória. E como eu estou no meio de um feitiço, aquilo que deveria ser uma mera lembrança se torna a repetição real de um momento ensaiado. Este é o passado, o passado que acontece agora, como um fantasma fadado a repetir-se, a repetir-se no Eterno Presente.
Felipe sorri para mim. Seus olhos azuis contrastam com o mar à sua esquerda, seu sorriso preenche o mundo à sua volta e nada mais existe além da escuridão e aquela felicidade. Ele toma em suas mãos uma garrafa de Heineken e sorri para mim, o universo para naquele instante, ele é o universo naquele instante, o coração da deusa bate por ele ama porque eu o amo.
— Só existem duas coisas capazes de mudar o Destino: o amor e uma garrafa de bebida. — ele diz com sua voz firme, enquanto sua imagem desvanece como um filme antigo.
Cerveja é o há na taça. Era isso que eu queria na época, mudar o Destino, pois eu sabia que ele se apaixonaria de novo, eu sabia que ele se apaixonaria por alguém que não era eu. Meu feitiço não foi capaz de interromper seus passos em direção ao amado, mas o trouxe em direção a mim.
“Eu quero o amor de Felipe uma vez mais por mim” foram minhas palavras exatas.
“Você veio a mim, você veio até a minha encruzilhada à procura de vingança. Você a encontrou, Henrique? Você encontrou a paz que buscava ao descobrir o símbolo que lhe permitiria matar Felipe?”
Não. Eu não consegui aquilo que buscava. Felipe era um poderoso oráculo capaz de me levantar com o poder de seu pensamento e me impedir de ferir mortalmente o seu peito, como ele havia feito metaforicamente com o meu. Eu precisava atar suas mãos, eu precisava atar seu poder, e foi exatamente isso que eu fiz.
 Felipe já não sorria. Seu olhar me encarava furioso. Eu era mais alto que ele, mais forte fisicamente, mas ele me olhava como se pudesse parar o meu coração com seus olhos, enfrentando-me sem medo da faca rente a sua garganta.
Eu precisava matá-lo, eu precisava. Ele havia dito que me amava tantas vezes que eu acreditei e agora que meu coração estava completamente preenchido dele, quem mais poderia me amar? Ninguém. E para me ver livre deste sentimento, tudo que eu precisava fazer era enfiar o fio de minha adaga um pouco mais, um tanto mais e não haveria mais Felipe Casemiro no mundo para me fazer sofrer com sua ausência.
A faca caiu de minha mão. Eu não tive forças.
— Para mim, basta saber que eu poderia tê-lo matado, Felipe, mas decidi não fazê-lo.
Ele olhou para mim. Seu olhar preenchendo o Eterno Presente. Seu olhar tomando a forma de um par de deuses que vaticinam sempre a verdade, sua voz preencheu o vazio e não parecia irritada, não parecia magoada, sua voz estava até mesmo entediada.
— Ambos sabemos que isto não é bem verdade.
E ele tinha razão, então eu o deixei ir, eu o deixei continuar.
“Mas ambos sabemos que isto não é bem verdade, filho. O feitiço que você pôs nele era poderoso, você que é filho do Destino, aproveitou-se das fraquezas de seu próprio avô e perverteu os caminhos que não poderiam ter sido mudados. Você criou um feitiço e o feitiço reclamou sua conseqüência.”
Sim. Eu havia feito um feitiço que eu mesmo não era capaz de quebrar e assim, André, aquele por quem Felipe havia me deixado, terminou o relacionamento. Mas o Destino é uma criança cruel, e as conseqüências por mexer com ele nunca são baratas.
As imagens sumiram repentinamente e eu estava no meio da estrada novamente, só e nu, como estamos todos no caminho da morte, mas aquela não era minha morte, era? Ainda estávamos na minha vida e a encruzilhada me levou ao caminho do meio desta vez.
“Esta não é a sua vida.”
— E porque estamos aqui?
“Porque todo feitiço de amor só leva a um lugar: a outro feitiço de amor.”
Estamos no meio de Setembro, o vento frio dos primeiros dias outonais invadia sua casa espalhando as folhas que ele jogara no chão para potencializar a invocação. Felipe estava nu e tremia sob o julgo do ar que lhe roubava todo calor.
Sua respiração ofegante, sua pele rubra, e seus olhos lânguidos como se houvesse alcançado finalmente os frutos de seu desejar... Desejo esse seria o deus que invocaria. Não a força intangível e metafísica, existente apenas nas lendas gregas, mas uma criatura ainda mais poderosa: o filho mais novo da Morte, Tertuniel.
–– Na escuridão se esconde a lascívia e o medo –– começou, falando as palavras que nem sequer compreendia, forjadas em línguas há muito perdidas pelo homem –– e o diabo na encruzilhada fornica com o desespero. –– Felipe moveu seus braços lentamente para o alto, acompanhado por algumas folhas que se desprendiam do chão, burlando a lei da gravidade. –– As dríades rodopiam sob os falo dos faunos, sobre a relva da floresta entregues, diante da vontade inertes, indolentes de prazer. –– Num movimento rápido, as folhas se ajuntaram aos seus pés, engolindo-os com seus amarelados corpos vegetais. –– Queimem em desejo, borbulhem diante do amor, incendeiem-se nos beijos lascivos da sombra, pois até os mortos em sofreguidão se inflamam diante do coração flamejante de Tertuniel. Eu vos invoco caminhante do fogo, eu vos chamo por um beijo, eu vos chamo por um desejo, eu vos chamo pelo preço do meu coração. –– Chamas irromperam de seu corpo, tomando toda a sala, queimando as folhas, lambendo suas pernas e braços. O fogo acompanhou ao movimento de seu braço, quando ele estendeu sua mão ao nada. –– Dance comigo na chama que é minha alma.
 Ao redor de sua mão, uma forma cinérea se formou numa mão negra que o segurava, logo atrelada a um corpo de uma criatura angelical o cujos olhos de fogo o encaravam.
O anjo cinéreo era dotado de longas asas que se desfaziam sob a menor lufada de vento, para logo se refazerem, constantemente alimentados pelas cinzas que agora infestavam todo o ambiente.
Completamente exposto frente à figura portentosa, Felipe tremeu de excitação, medo e receio. Sua pele formigava, principalmente em volta da mão que tocava o anjo, era uma sensação boa, mas aterrorizante, comparável aos primeiros momentos em que se descobrira apaixonado.
Talvez, compelido pelo ímpeto dessa nova paixão, seu próximo ato fora impensado, feito para os moldes de um filme em câmera lenta. Puxou o anjo para perto de si e encostando seu peito junto ao dele, beijou-o no lugar onde deveria estar sua boca e misteriosamente não sufocara com a fumaça, ao contrario, beija-lo fora como apagar as luzes no meio de um colapso, como sentir o gosto de todas as chuvas e raios do mundo em seus lábios, como sentir o mundo inteiro parar diante da glória da luz que emanavam.
De fato, ambos emanavam luz naquele beijo, posto que estavam tomados pelas chamas, reluzentes como duas criaturas angelicais no meio na escuridão tartárica que se fazia na casa de Felipe.
Ao final do beijo, o anjo se mostrou em sua forma verdadeira. Seus profundos olhos prateados encararam o garoto nu e ruborizado a sua frente, eram impassíveis como à lua, incapazes de mudar sua trajetória sob quaisquer circunstancias. O franzir de seus lábios indicava que ele esperava o fim daquele ritual, impaciente.
–– Eu desejo ter André em minha cama, ao menos uma vez.
Estava feito, o pacto fora selado com algo mais poderoso do que sangue, ele fora forjado no fogo da paixão de Felipe, no flamejar de todo o sentimento que ele já sentira e que um dia viria a sentir. Um beijo, por um desejo, essa era a regra que Tertuniel seguia.
“Mas Desejo não se importa com o coração alheio e ainda assim, Felipe feriu-se com o que queria. Nada nos fere mais do que aquilo que desejamos de todo coração sem se importar com as conseqüências. André o deixou novamente e então, Felipe entregou-se a Morte.”
Ela fala como se aquilo fosse o passado, mas onde estou fora do Eterno Presente, aquilo é o futuro. Felipe estaria morto por minha causa? Eu me perguntei, mas minha mãe sorriu e me levou de volta para sua encruzilhada.
“O caminho à direita é o futuro, mas você deve ir por este caminho apenas se estiver preparado para saber o que seu desejo criou. A maioria das pessoas não quer saber a verdade sobre as conseqüências daquilo que desejam para si.”
Eu caminhei.
Enquanto caminhava em meu futuro, as pontas soltas se juntavam em minha mente. Felipe havia se entregado a Morte, sim, mas não morreu, ao contrário, havia se tornado a mesma. Tornou-se a Morte, conheceu sua alma gêmea e teve o coração partido. Voltou a ser um mortal e por conta disso milhares de pessoas morreram em uma noite.
“Seu desejo causou o apocalipse.”
Tudo que eu quis era o amor de Felipe.
“Tudo que você queria era ter o amor de Felipe para si, e não se toma a força nenhum amor. Não existe algo como um feitiço de amor, meu filho, tudo que existe é o domínio da vontade e aqueles que acreditam que isto lhes bata.”
Felipe casou-se com André, mas o deixara para salvar o mundo. E isto o trouxe até mim, e isto o trouxe até a cena que agora eu assistia.
Eu morria em seus braços, para salva-lo. Meu sangue tomando todo o chão branco de uma torre que no futuro traria bastante dor a muitos.
— Porque? Porque você ficou na frente dele, seu tolo? Agora você vai morrer. Porque diabos morrer por mim?
— Isto não ficou claro, Felipe? Eu estou morrendo por você, porque você fez minha vida parecer mais bonita, minha morte parecer nobre. Porque você é o único motivo pelo qual eu morreria.
E então eu morri, enquanto ele me deu um último beijo nos lábios, levando-me com este beijo ao mundo dos mortos.
Não se pode deixar de amar os mortos. E foi assim que você conseguiu o amor dele. Valeu a pena?
Ela me deixa, as imagens da floresta desvanecem e eu estou de volta ao circulo que montei antes desta meditação. A minha frente, uma taça de cerveja, em minhas mãos, a gota de sangue que iniciaria tudo.
Eu gostaria de dizer que enxuguei minha mão e mudei o destino. Que derramei a cerveja na terra em libação para minha mãe e vivi minha vida como deveria, em felicidade e harmonia.
Eu gostaria de dizer que fui sábio e por isso estou comunicando esta história a você, para que seja sabido que Henrique Calvalcante fez a escolha certa e que ninguém morreu porque ele derramou uma gota de seu sangue numa taça de cerveja.
Mas eu estaria mentindo e a Morte não teria nada a dizer.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Eu que não fumo queria um cigarro





Quando eu te deixei, eu te disse uma frase de um filme qualquer de Dolan; eu te disse que não queria desperdiçar o resto dos meus dias te amando mal, te disse também que me sentia sozinho, pois não havia ninguém comigo, eu que toda minha vida passei só, sentia um desconforto tremendo na escuridão da tua ausência que sequer deveria existir. Quando eu te deixei, eu criei essa ausência, eu criei uma desculpa para essa ausência. Se eu te deixei, foi porque eu te amava tanto que eu precisava de um motivo para perdoar a sua falta. Eu nunca perdoei.
Dito isso, estou sentado no píer, bebendo conhaque e fumando um cigarro ao som de Engenheiros do Havai, não existe coisa mais clichê do que alguém que reconhece em si que sua história de amor foi comum, mais um destes acontecimentos prosaicos que assolam o mundo deste que a Canção foi cantada. Eu te deixei porque você me deixaria de qualquer forma. Eu tive escolha?
Mas não, nenhuma dessas palavras é um lamento. Se eu não podia passar o resto dos meus dias te amando mal, desta forma, diante do meu sofrimento, eu aprendi a ser feliz em te esperar na outra vida, esta a gente aparentemente já estragou. Ou fui eu que estraguei sozinho? Desta forma, eu aprendi a te amar verdadeiramente, apesar de nunca ter aprendido o momento de seguir em frente. Você seguiu, eu não; é a vida.
Eu perdi as contas de quantas vezes sentei nesse píer nas últimas semanas. Houve momentos em que eu quis me jogar e morrer; aparecer em todas as manchetes: “jovem morre afogado na própria fúria e magoa”. E não se engane, apesar da minha aparente calma e aceitação, eu estou furioso e magoado, porque as circunstancias que se operaram no seu seguir em frente foram tão rápidas que eu me senti descartado. Não foi culpa sua, tudo que você quis foi viver.
Nos primeiros dias eu quis culpar você e dizer que você tirou minha paz, e dizer que você destruiu minha vida. É mentira. Você foi um momento dourado de pausa numa desolação que já existia bem antes de você surgir, você apenas me lembrou, quando saiu, do vazio que sempre haverá no meu mundo.
Então não, eu não vou me jogar. Porque eu sei que isso magoaria você e faria você se sentir culpado por algo que a bem verdade não é sua culpa. Você me magoou sim, você me esqueceu sim, mas isso é a vida e milhares de pessoas passaram por isso sem se jogarem em alto mar. Sem se afogarem em conhaque.
Eu sinto sua falta. Nas primeiras semanas, confesso, sentia falta do seu corpo, do seu corpo nu, do seu sexo; depois do seu cheiro, e do seu toque, sua voz enquanto gemia baixinho dizendo que era meu. Ninguém pertence a ninguém e o amor tem sempre o desejo de ser livre. Você era seu e se compartilhava comigo. No fundo, eu me orgulhava junto aos deuses, porque de todas as pessoas do mundo você havia escolhido para amar. Até que não era mais eu essa pessoa.
Hoje, percebo que o que mais sinto falta são dos seus sorrisos. Do seu caminhar indo embora de um jeito trôpego, num caminhar que eu reconheceria mesmo no escuro a quilômetros de distância. O mesmo andar que eu reconheci de longe segurando a mão de outra pessoa. Eu sinto falta de quem você era, mesmo ciente de que aquela pessoa se foi quando nós dois deixamos de ser.
“Ser” eu não sei o que fomos. Eu não sou aquele de quem seus amigos falarão daqui a dez anos, nenhum deles me conheceu. Eu não sou a história que você contará aos seus netos na velhice, talvez você sequer se lembre de mim até lá. Eu fui uma parte oculta da sua história, alguém que não pertenceu realmente a sua vida, um alguém sem lugar que, no entanto, ocupava um lugar que era nosso por direito. Um lugar que ainda existe no espaço intercalado entre nossos passos; distantes demais para serem sentidos.
Não é poético e isto me magoa: a certeza de que não há nada em sua vida que sirva de lembrança da minha existência. É como se eu não tivesse existido. Não há fotos que serão reveladas daqui a um ano, não há amigos que vão comentar da minha existência em mesas de bar. Eu vivo numa lembrança sem ancoragem e tenho medo do dia em que nem assim eu viver.
Mas não é sua culpa. Nem minha também. É culpa do mar revoltoso. É culpa do destino cruel, desditoso. É culpa dos deuses, estes sim são os culpados. Porque sabiam que você não ia ficar e me disseram. Disseram-me e ainda assim eu continuei, porque era meu desejo continuar.
Hoje, ainda é meu desejo continuar, mas não tenho meios. Em meus sonhos, não encontro fala, nem coragem sequer de abrir a porta do seu quarto e assisto — à distancia mesmo nestes sonhos — sua felicidade. Me culpando — e isto não é um sonho — por não conseguir estar feliz também.
Não me leve a mal, eu não desejo nada de ruim a você; você tem o direito de escolher, você tem o total direito de ser feliz. Eu não pertenço a essa felicidade, ela não é mais o meu lugar, o meu lugar é apenas na lembrança. Talvez em outra vida as circunstancias sejam diferentes. Nesta eu encontro conforto no que poderia ser sido. Nesta eu encontro conforto no que foi.
Eu apago o cigarro, eu jogo o resto do conhaque no mar. Que Yemanjá receba o presente e sorria, pois seu prantear é o oceano, e eu acrescentei algumas gotas de mim nesta criação.
Eu disse que não quis desperdiçar minha vida te amando mal, mas a verdade é que eu não queria desperdiçar a sua, ciente de que você estava querendo ir embora. Tudo que eu fiz até aqui foi por sua felicidade.
Eu vou desperdiçar minha vida nesse píer. E você, você trate de ser feliz; ciente que há alguém que te ama, sentado de frente pro mar, pedindo por você. Eu desejei a você toda felicidade do mundo, e você a encontrou.
E se quiser voltar, apesar de tudo, saiba que eu te perdôo, se você puder me perdoar também. E que eu posso comprar outro conhaque para bebermos juntos e ouvirmos música, mas sem cigarros. A sua respiração é a última fumaça que eu quero respirar até o fim dos meus dias.
Adeus.


Anno 8.